Vencendo obstáculos na criopreservação de oócitos

A preservação dos gametas femininos configurou-se como um dos grandes desafios da reprodução assistida ao longo dos anos. Ao contrário da célula reprodutora masculina, que se adaptou logo a preservação em baixíssimas temperaturas, o óvulo, por sua dimensão muito maior, oferecia grande resistência a criopreservação. A ciência começou a vencer essas barreiras recentemente, e o Centro de Reprodução Humana Santa Joana já realizou procedimentos de fertilização a partir de óvulos congelados.

A criopreservação é uma técnica usada para conservação de células ou tecidos a temperaturas inferiores a 196ºC negativos, temperatura na qual a água é praticamente inexistente, podendo ser o período de armazenamento extremamente longo. Desde a década de 40, é realizada a crioprervação de espermatozóides. Já nos anos 80, relata-se o nascimento do primeiro bebe nascido de embrião humano congelado. Entretanto, o gameta feminino por se tratar de uma célula relativamente grande, com maior volume de água intracelular e uma membrana muito resistente, exigiu freqüentes alterações nos protocolos vigentes em busca de melhores resultados. A técnica de criopreservação de oócitos é uma excelente alternativa para conservar a capacidade reprodutiva em pacientes que se submetem ao tratamento oncológico, como quimioterapia e radioterapia, que podem causar danos irreversíveis aos ovários, e também para proteger as pacientes suscetíveis a síndrome do hiperestimulo na indução da ovulação. Nesses casos, recomenda-se a aspiração e o congelamento dos oócitos para, em um próximo ciclo, realizar a fertilização e a transferência embrionária. Outra finalidade é a manutenção do futuro reprodutivo das mulheres que necessitam adiar a gestação por motivos pessoais ou profissionais, uma vez que o armazenamento de embriões pode gerar dificuldade do ponto de vista ético e religioso.
Há alguns anos, as taxas de sobrevida dos oócitos humanos descongelados não eram satisfatórias. Os índices de sucesso variavam de 27% a 64%. Hoje, uma técnica descrita como vitrificação está sendo bastante empregada para criopreservar os oócitos.
O Centro de Reprodução Humana do Hospital e Maternidade Santa Joana e a Huntington Medicina Reprodutiva fizeram uma parceria com a Universidade de Michigan para desenvolver a técnica e vêm apresentando excelentes índices de sobrevida de óvulos após o descongelamento. Desde 2004, já foram criopreservados oócitos em 130 casos, sendo que, destes 50 foram descongelados com sobrevida de 70%, com a taxa de fertilização de 88% e taxa de clivagem de 98%.
As evidencias de sucesso da técnica são crescentes. Obtivemos 42% de taxa de gravidez por transferência, com seis nascimentos de crianças saudáveis.

Reprodução Humana HMSJ